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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

MENSAGEM DO POVO TUPI-GUARANI (ao pajé Awa Djedjokó)

O pajé Samuel Bento Awa Djedjokó morreu após um AVC e foi enterrado em Bertioga, onde vivia
O pajé Samuel Bento Awa Djedjokó morreu após um AVC e foi enterrado em Bertioga, onde vivia

por Felipe Milanez / Terra Magazine
De Bertioga (SP)


Após a noite intensa de um longo ritual fúnebre, foi enterrado na segunda-feira, 12 de dezembro, no ancestral cemitério indígena próximo ao belo rio Silveira, na terra indígena Ribeirão Silveira, em Bertioga, no litoral paulista, o corpo do cacique e pajé Samuel Bento Awa Djedjokó, importante líder politico do povo Tupi-guarani.
Nascido em 9 de janeiro de 1937, o líder político e espiritual morreu na noite de 9 para 10 de dezembro, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC). 
Durante o funeral, que reuniu diversas lideranças guarani e tupi do Estado de São Paulo, Carlos Fernandes Guarani, ou Papá Mirim Poty, como é chamado por seu povo, um dos filhos de Dejdjokó, fez o seguinte depoimento, no qual transmite a beleza e a lucidez da visão de mundo que aprendeu com seu pai:

"Meu pai muitas coisas me falou em termos de organização. 
E quando ele fazia o batismo das crianças da aldeia, todo dia 9 de janeiro, sempre que ele acabava de fazer o ritual, dizia assim: vai se preparando que um dia eu não vou continuar fazendo isso.
Quando esse dia chegar, quero que vocês tenham muita força e alegria.
Porque o mundo hoje está muito difícil de suportar. 
As muitas doenças que existem hoje, eu não sei de onde vêm essas doenças. 
E além das doenças, temos os políticos, que não querem saber da existência dos nativos. 
Os políticos não entendem o nosso modo de viver. 
O nosso modo de ser é viver em harmonia com todos os seres humanos.
Ele dizia assim: nós não sabemos negociar terra, porque sabemos que a terra é de um dono só. Esse dono só deu para todo mundo viver e desfrutar dela, sem destruir. 
O dono, que é o pai da natureza, do mundo, nosso pai criador, ele deixou um paraíso para todos nós, seres humanos, para que cuidassemos do nosso paraíso. 
E isso não era para ser vendido, não era para ser negociado. 
Também não é para ser tirado de quem deseja viver. 
Então, todas essas coisas, ele me passou...
Nós não temos esse pensamento que temos que vender a terra ou brigar pela terra. 
Isso a gente não tem. 
Então, meu pai foi embora. 
Agora não está mais entre nós. 
Não está mais comigo. 
Não vamos ter mais ele para orientar, para rezar, toda noite. 
Não vou ouvir mais ele cantar para Ñanderu. 
Mas vai estar sempre no meu coração. 
Por isso que o ser humano tem que pensar: para que ser político e pisar em cima das pessoas que precisam da terra? 
Para que manipular as plantas para ganhar em cima das pessoas que precisam ser curadas?
Nós não queremos isso.
Vou deixar um canto que toda vez que ele fazia o batismo para dar o nome para nossos filhos e netos, ele cantava essa música. 
Não é bem uma música, é o nosso jeito, nosso sentimento e não tem uma tradução em português. 
Não sei me expressar. 
Ele dizia que não tem um nome para isso, mas, se quiser dar um nome, dizia assim: 
A EXPRESSÃO DO CORAÇÃO DO SAGRADO".

E Papa cantou a linda música e após cantar, continuou:

"Força! Viva Tupi-Guarani!
Assim a gente vai sobrevivendo. 
Não importa o que acontecer. 
Nós estamos aqui sempre e forte. 
Nós acreditamos que um dia de felicidade, sem dor, virá. 
E nós, seres humanos, estamos aqui para presenciar todas as coisas que vierem. 
E mesmo assim nós temos que ter força e coragem para poder encarar o nosso mundo. 
Então, povo, você que é do povo, vamos lutar! 
Pelo mesmo ideal. 
Pela mesma liberdade. 
Pelos nossos direitos. 
Nos respeitem, e assim nós respeitamos vocês.
Nós demos todo o mundo. 
Oferecemos o melhor. 
Quando os portugueses chegaram, a gente teve hospitalidade, oferecemos hospitalidade. 
Maior carinho. 
É isso que a gente queria. 
Queremos o respeito. 
E assim, respeitaremos vocês. 
Em nome do Awa Djedjokó, que é meu pai e não esta mais aqui entre nós.
Meu pai, descanse em paz. 
Hoje você está no outro mundo. 
No mundo que Ñanderu preparou para você. 
Com certeza vai dar força para nos todos, e vai estar sempre junto da gente, lutando com os mesmos ideais. 
Embora haja dor e sofrimento a luta continua! 
E seguiremos caminhando, sonhando e acreditando que é possível mudar!!!
Assim é nossa Filosofia!
Assim é nosso modo de ser!
Assim aprendi com meu pai, grande Awá Djedjokó!
E assim seguirei rezando, cantando e me comunicando com Tupã e os seres sagrados da floresta, em busca de equilíbrio com todas as formas de vida, com todos os irmãos e irmãs dessa Terra, independente de sua raça, cor, pensamento...
Assim foi ensinado por Ñanderu e Ñandexy desde os princípios...
E assim me ensinou meu Pai!
E a ti agradeço e sigo suas pegadas...
"


Papa, emocionado, despediu-se de seu pai e foi se refazer com sua esposa, Cristine Takuá, e seu filho, Mirim Dju.
Lua cheia, silêncio na aldeia, apenas o som dos cantos e do violino entoando se destacam do zumbido da mata.
Djedjokó estava a passeio em Santa Catarina junto de sua esposa Doralice Kunhã Tatá, onde mora parte de sua família, mas vivia no litoral paulista, na terra indígena Ribeirão Silveira, em Bertioga.
Djedjokó sofria de diabetes e pressão alta e chegou a ir ao hospital da cidade de Barras do Sul-Araquari, em Santa Catarina, Aldeia da Conquista, onde foi medicado.
Voltando para a aldeia onde estava hospedado, ele não resistiu ao tratamento e faleceu durante a madrugada. Seu corpo foi então transladado para a terra onde vivia, no litoral de São Paulo.
Por décadas, ele foi uma das principais lideranças indígenas do povo tupi-guarani em São Paulo, lutando pela demarcação de terras no litoral paulista.
Ele reivindicava a identidade do povo indígena tupi-guarani, e convivia, na terra indígena, com a etnia guarani mbya, a qual pertence sua esposa.
Em Bertioga, a grande disputa territorial se deu contra a família dona da rede de supermercados Peralta, que queria transformar a área onde os índios viviam em um condomínio.
Recentemente, após pressão liderada por Djedjokó, houve a ampliação do território, que havia sido demarcado na década de 1980 sob pressão e com medidas judiciais para proteger os direitos indígenas, mesmo sem contar com a ajuda da Funai, que na época dizia não haver índios no litoral do estado de São Paulo. 
Hoje, a área tem cerca de 8.500 hectares e abarca parte do parque estadual da Serra do Mar.
Nascido em 9 de janeiro de 1937, o líder político e espiritual também sempre celebrava nessa mesma data uma tradicional cerimônia de batismo, momento em que as crianças nascidas ao longo do ano ganhavam o nome pela visão do pajé.
Ano passado, acompanhamos um outro ritual, o "batismo da erva-mate", regido por Djedjokó.


Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/

quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Carta do Cacique Mutua (dos Povos Xavantes) a todos os povos da Terra"

 http://api.ning.com/files/7H*86U*lf7pASnicLa4cU0tHnfP-U9SifHHYogkZqngl5vCRWGcoOqPGMlfOgDbBu5VxsnGbErdmit3BTlIXiYPykA0dAY*1/312336495_f8e0c00695.jpg

O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora. Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado. Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo. Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.

Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio. O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.
Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.

Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes. Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.

Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue. Pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.

Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós. Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.

É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.
Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.

O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.
Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.

Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta. O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu. Com um grito agudo perguntou: Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu? Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens. O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.

A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a cidade e no caminho eu só via árvores.
Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo. Quem arrancou a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor. As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão à terra. Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último, usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.

Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.

Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos. Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.

O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.

O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos homens como na natureza.

Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é o meu canto!

Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer. Rio Xingu! Vamos nos fortalecer!

Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer. Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.

Cacique Mutua",
Xingu, Pará, Brasil, 08 de junho de 2011

Que os bons de coração se inspirem! Na autênticidade e na verdade de um nobre morador das terras do Xingú! “Carta do Cacique Mutua a todos os povos da Terra"



Fonte: http://claudiovelasco.ning.com/profiles/blog/show?id=2852652:BlogPost:458859&xgs=1&xg_source=msg_share_post


segunda-feira, 20 de junho de 2011

UBUNTU - A lição de civilidade de uma tribo africana a um antropólogo europeu

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A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.

Ela
contou que um antropólogo europeu estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou
uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As
crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O
antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas
simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"

Ele
ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu
significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"

Atente
para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos...
UBUNTU PARA VOCÊS!



 

Zezito de Oliveira

 

Fonte: http://consorciocultural.blogspot.com